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1965 continua!

A alvorada

 

O Toque da poderosa campainha (elétrica) nos acordava às 6:00 horas, através de um grande susto.

Ainda assim, muitos dos nossos colegas só se levantavam após a “visita” de um dos inspetores de alunos de plantão,que obrigava os mais dorminhocos e sonolentos a se levantarem e arrumarem suas respectivas camas. O Sr. Simão era dos mais “respeitados” nesta especialidade,pela sua austeridade e autoridade,bem como o Sr.Clayton. O mais tolerante era,sem dúvida, o Sr.Soler.

 

Alguns corajosos ex-colegas se aventuravam a tomar banho frio(na verdade geladissimo!) logo após

acordarem.Haviam 10(dez) chuveiros de água fria no primeiro andar,onde os veteranos “ameaçavam” os “novatos” com uma “toalhada”,quase sempre. As brincadeiras eram fortes, e nós,novatos de 1965, tinhamos que levar as situações “na esportiva” como era a maneira de se falar naqueles tempos.”Novato” inteligente(todo novato era burro,segundo os veteranos”) não iria se indispor com um veterano por uma “simples” toalhada ou “ameaça” similar. Tinha muito colega que nos dias das aulas de educação física,faltava só por medo de tomar aquele banho gelado.

 

O horário das aulas

 

Os dias de aulas normais,ou seja,aqueles que não haviam aulas de Educação Física,naquele ano ministrada pelo professor Cobra (o professor Delmo Maria,dava suas aulas para as turmas da “Escolha Velha”), se iniciavam às 7:00 e se encerravam as 11:00,no período da manhã. Eram aulas de 50 minutos,com 10 minutos de intervalo, entre cada uma dessas aulas. O período da tarde,se iniciava com as aulas das 13:00 horas e se encerrava normalmente às 16:00 horas. Mesmo assim, haviam algumas classes como as Primeiras-Séries daquele ano,que tinham aulas até às 17:00 horas. Neste último caso, lembro-me do professor Italo,dando aulas das 16:00 às 17:00,já sentindo o peso do cansaço diário. Naquele distante 1965, tinhamos duas aulas ao sábados:Português com o professor Dirceu Faria e Inglês,com o então jovem professor Bruno Tolendall.

 

O horário do Estudo

 

Após a jornada de aulas diárias,tinhamos o horário das 19:00 ás 20:50 hs para estudarmos as matérias dadas em classe .No nosso primeiro ano,não conseguimos aproveitar esse horário tão precioso,devido à nossa natural falta de experiência por conta da pouca idade da maioria( 11 e 12 anos).Era um horário onde a maior parte conversava sobre outros assuntos, alguns dormiam debruçados às carteiras e a minoria,os mais experientes,esforçados e aplicados,tentavam estudar.

 

Provas e médias para aprovação

 

Para sermos promovidos à série seguinte,tinhamos que obter a média 7,00(sete) nas 7 provas de avaliação durante o ano.A primeira prova, no mês de março, agregava as máterias de fevereiro e março, seguindo -se a esta,as provas de mensais de abril,maio e junho.No segundo semestre, provas em setembro(matérias dadas em junho e agosto), outubro e novembro.Quem tivesse obtido os 49 pontos por matéria(média 7),estava aprovado,sem necessidade de exame,o qual se realizava na primeira quinzena de dezembro.Os que não conseguissem os 49 pontos,passavam a ter a obrigatoriedade de somar 52 pontos,com matéria lecionada durante todo o ano.Assim,quem somasse nas 7 provas inicialmente previstas abaixo dos 49 pontos tinham que chegar na prova final aos 52 pontos.Exemplo: o aluno que fizesse 45 pontos,teria que tirar nota 7,na última prova do ano.

Não era nada fácil ser aprovado naqueles tempos.Quem não conseguisse a nota em mais de 2 matérias ,estaria automaticamente reprovado.

 

Os exames de “Segunda Época”

 

Eram realizados somente em janeiro do ano seguinte.Era a chance final para aqueles que não conseguiram a aprovação,após as provas finais de dezembro.Eram as chamadas provas “estraga férias”.Essa última oportunidade para não perder o ano,só era permitida para os alunos que não conseguiram aprovação em até 2 (duas )matérias,nos exames realizados em dezembro do ano anterior,conforme eu expliquei no tópico anterior.

 

Uma aula com o professor Juventino

 

    Os professores que eu citei na matéria anterior, tinham suas características individuais muito marcantes. Relembro abaixo, os momentos iniciais de uma aula de Francês,com o professor Juventino Araújo.

 

Professor Juventino: - “ Bonjour, mès éléves!”

Classe : - “Bonjour, monsiuer!”

 

Claro que o cumprimento do velho mestre provocava uma enorme manifestação de desordem. Era um grande arrastar de carteiras no chão da sala de aula e a resposta ao “bonjour” jamais acontecia em uníssono,tudo para provocar o comentário que sempre vinha a seguir,feito pelo

professor. Quero lembrar aos alunos dos tempos atuais que aguardávamos a todos os professores sempre de pé. Só nos assentávamos,quando o mestre,nesse caso o professor Juventino,nos ordenava:”Asseiez vous,sil-vous-plâit!”(assentem-se,por favor!).Após,ele manisfestar seu desagrado pelo comportamento nada exemplar dos alunos para recebê-lo,ele finalmente,ordenava:

-”Ouvrez vous cahiers,prenez vous crayon e ecrivez,sil-vous-plâit!”(Abram seus cadernos,peguem seu lápis e escrevam por favor!').Na verdade,em lugar de lápis,já usávamos a famosa esferógrafica popular até hoje,que acabou com o status da antiga Parker 51.A marca da esferográfica popular é aquela mesma,escrita por 3 letras. As Parker 51, canetas esferográficas,eram mais para alunos de melhores posses daquele tempo. Voltando para a narrativa, o velho mestre anunciava a tarefa a seguir ,para aí sim começar a aula,isso após de uns 15 minutos tentando fazer a classe se calar em definitivo. Aí então ele falava:”Dictée et Traducion”(Ditado e Tradução).Estava iniciada,finalmente a aula de Francês com o Professor Juventino Aráujo.

 

Sobre o Ditado e Tradução em Francês

 

Sabiamos sempre, que esse exercício dado em aula,cairia na prova, mas,nunca sabíamos qual seria exatamente a lição. O livro de Francês tinha as lições numeradas. Aliás,um colega que não citarei o nome,que tinha alguma dificuldade na matéria,certa feita numa prova,abriu seu livro para “colar” seu Dictée e Traducion.Só que inadvertidamente, esse nosso colega,copiou o texto na prova, algumas linhas além do que fora ditado pelo professor. Fato é, que,quando na entrega da prova,o professor Juventino,não se fez de rogado e declarou:”Teve aí um cidadão(era assim que ele nos chamava),que escreveu até o que eu não ditei!”.Nós,os colegas de classe,defendemos nosso amigo “distraído”,dizendo ao professor que ele,o aluno,estudou tanto o texto e o decorou tão bem,que empolgado porque o texto escolhido para a prova,foi exatamente o que ele havia decorado,que se esqueceu de parar no parágrafo,que foi transformado pelo professor, em ponto final. Esse colega,foi ameaçado por um zero,mas,o professor como sempre boníssimo,jamais o aplicou a algum aluno.

 

Outros professores, outros estilos

 

Italo Boratto

 

O professor Italo Boratto, era aquele mestre clássico,de voz pausada e dicção perfeita.Suas aulas eram sempre a tarde(das 16:00 às 17:00 Horas)Silencioso, ele adentrava a sala e com sua inconfundível letra de forma ,preenchia o quadro negro(era negro mesmo e não verde como a maioria é nos dias de hoje),com o resumo da matéria-tema da aula. De vez em quando,ele emitia algum bocejo,fruto do seu cansaço,normal para quem tinha alguns anos que já lhe pesavam e muito mais porque certamente já estava desgastado das tarefas diárias executadas durante o dia,em algum outro local de Barbacena. Ele era muito seguro na condução da aula de Geografia do Brasil.

 

Ubirajara Bertoletti

 

O professor Ubirajara Bertoletti, usava barba e cavanhaque,em muito se assemelhando a Pedro Alvares Cabral. Suas aulas eram cheias de ritmo,afinal,como bom advogado,era fluente sua maneira de falar e ágil nos gestos,porque ele estava entre os mais jovens professores da época.

 

Hamilton Navarro

 

O saudoso professor Hamilton Navarro, era de uma personalidade muito austera. Não me lembro de nenhum ato de indisciplina nas aulas que ele ministrava. Quando alguém anunciava que ele tinha saído da sala dos professores,para se dirigir para a sala de aula,o silêncio já começava a se fazer presente. Era possível,devido ao grande silêncio que se fazia,ouvir o voar de um mosquito ou o canto de pássaro lá fora. Seus “carroções”(as longas e difíceis expressões aritméticas eram assim chamadas por alunos dessa época) tomavam todo o quadro negro. Suas provas,de cinco questões sempre,não tinham meio certo em suas respostas. Valiam 2 pontos cada uma. Uma nota 6(seis) era motivo de comemoração por quem a tirasse. De seis em diante,eram tarefas para meus amigos Eneás Utsch Moreira e o notável Mário Luiz Servulo, o eterno Esquilo. Os melhores alunos de Matemática das Primeiras Séries de 1965.O Mário inclusive tirou pelo menos um 9,5 .Na verdade,ele deve ter merecido o 10(dez).Não que o professor Navarro não fosse justo,e sim ,porque ele era mesmo um mestre muito rigoroso. Para ele o 10(dez)era a perfeição. Mas,rigores a parte,foi um grande professor e pessoa de ilibada respeitabilidade. Um ícone e uma das bandeiras da História da Instituição.


Comentários (2)
  • Eneas Utsch Moreira  - Professor Navarro
    Era pai de nosso colega Marco Aurelio, suas provas orais e demonstracoes eram famosas. Sua vitima preferencial sempre foi o Jose Marcio Lighori, era comico as feicoes do mesmo quando ouvia a temida ordem "Seu Lighori" venha a pedra, que era como ele se referia ao quadro negro.
  • João Barbosa dos Santos

    Enéas


    Fiquei muitissimo feliz com sua presença no site.


    Espero que você se manifeste mais vezes e contribua também contando suas

    lembranças para todos os nossos leitores.


    Forte abraço em você e família!



  • Mário Sérvulo  - 1965 Continua!
    Caro Baianinho,

    Como sempre, é uma viagem de volta ao passado ler a sua coluna, tamanha a fidelidade e detalhes de sua narração.

    Obrigado pela referência à minha pessoa. Muito gentil de sua parte.

    Bom ter notícias do Enéas, o famoso 21, que fez referência ao Marco Aurélio, filho do Hamilton Navarro. Infelizmente os dois já falecidos.

    Um grande abraço,

    Mário Sérvulo
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